Mortalidade Infantil
Para medir as condições de saúde - considerando-se que a saúde é um direito de todos e dever do Estado, como preconiza a nossa Constituição – fazemos uso de indicadores, ou seja, dados que possibilitem a verificação da ocorrência de um fato específico. Assim, um dos indicadores fundamentais para se avaliar a qualidade de vida é o da mortalidade infantil, que mensura quantas crianças menores de um ano, dentre as que nasceram vivas, morreram em determinado tempo, período e local, permitindo-nos comparar a qualidade de vida de uma região com outra.
O coeficiente de mortalidade infantil pode ser obtido através da seguinte fórmula: número total de óbitos em crianças menores de um ano dividido pelo número total de crianças nascidas vivas (no mesmo tempo, período e local) e multiplicado por 1000. O resultado obtido nos permitirá conhecer quantas crianças menores de um ano morreram em cada 1.000 nascidas vivas.
A – Crianças que morrem até 28 dias de vida
1. Causas referentes à má assistência ao pré-natal e ao parto:
- falta de pré-natal adequado;
- má assistência ao parto: demora de atendimento, falta de vagas em hospitais;
- ausência de pessoal capacitado para o atendimento do recém- nascido.
2. Crianças com baixo peso (menos de 2.500g), nascidas de mães:
- fumantes, alcoolistas ou drogadas;
- que tiveram graves problemas de saúde durante a gestação;
- gravemente desnutridas.
3. Crianças:
- com má formação congênita (proveniente de problemas gestacionais, algumas vezes produzidos por doenças infecciosas das mães);
- com má formação genética;
- que nasceram prematuramente (antes de completarem 9 meses de gestação);
- nascidas de portadoras de HIV positivo (mães com AIDS), não tratadas.
B – Crianças que morrem entre 28 dias e 1 ano de vida
- crianças que sobreviveram aos primeiros 27 dias de vida e morreram posteriormente em conseqüência de doenças (patologias) anteriores;
- crianças que sofreram desmame precoce;
- crianças que não receberam as vacinas adequadas;
- crianças desnutridas (com maior facilidade de apresentar infecções);
- crianças com problemas respiratórios;
- crianças com doenças diarréicas (adquiridas por infecções transmitidas pela água, lixo ou falta de saneamento básico).
C – Causas mal definidas, violência e acidentes
Atualmente, muitas crianças morrem em decorrência de maus tratos, acidentes domésticos e de trânsito, além de outras violências.
Total de óbitos em menores de um ano, em 1990 e 1995, segundo as principais causas de morte
Causas |
1990 |
1995 |
Doenças infecciosas e parasitárias |
10.824 |
6.941 |
Doenças respiratórias |
20.775 |
15.627 |
Afecções do período perinatal (até 7 dias de vida) |
75.092 |
76.168 |
Acidentes e violência |
1.677 |
2.318 |
Sintomas mal definidos |
18.488 |
11.253 |
Fonte: Fundação Nacional de Saúde/Ministério da Saúde- Sistema de Informação de Mortalidade
O coeficiente de mortalidade infantil nos informa quantas crianças morreram antes de completar um ano (no mesmo tempo, período e local). No entanto, ele representa a média das mortes. Por exemplo: no Brasil, em 1997, de cada mil crianças que nasciam 36,7 morriam antes de completar um ano. Entretanto, estas mortes não se distribuem igualmente pelo nosso país e/ou cidade, haja vista que a presença de condições socioeconômicas críticas, em decorrência da falta de emprego, ausência de saneamento básico, desnutrição e precária assistência à saúde, faz com que o número de mortes aumente proporcionalmente, o que é facilmente percebido pela análise dos indicadores regionais: Norte: 32,6; Nordeste: 48,1; Sudeste: 36,3; Centro-Oeste: 40,3 e Sul: 31,0.
Após a década de 90, como resultado de uma maior atenção à saúde da mãe e da criança, a mortalidade vem caindo como um todo no Brasil, principalmente a de crianças de 28 dias a 1 ano, cujas causas principais são passíveis de redução desde que sejam adotadas medidas de atenção básica de saúde (saneamento, estimulo ao aleitamento materno, vacinação, etc.) e de melhoria das condições socioeconômicas da população. Atualmente, as principais causas são as chamadas afecções perinatais (aquelas que ocorrem nas crianças de até 28 dias de vida ) e a desnutrição.
Por sua vez, o acesso à educação (especialmente para as mães), a melhoria de condições de vida e moradia, os cuidados diários de higiene pessoal e do ambiente em que se vive e o desenvolvimento de programas de educação em saúde - que orientem as comunidades e famílias - são também fatores essenciais para a redução da mortalidade infantil. Ressalte-se que esses programas devem trabalhar com grupos comunitários diversos, no sentido de difundir informações sobre cuidados para a promoção da saúde e prevenção de doenças. Representam apoios importantes para aprimorar o processo de atenção à saúde das crianças, a humanização do atendimento e a melhoria das condições de vida das populações menos favorecidas.
COMO REDUZIR A MORTALIDADE INFANTIL
Atenção à gravidez
A saúde de um bebê sadio está implicitamente ligada às condições de desenvolvimento da gestação e aos cuidados de saúde no seu primeiro ano de vida, principalmente o primeiro mês (período de maior risco de vida), o que permitirá à criança boas condições para enfrentar as incertezas do ambiente extra-útero.
Considerando tal fato, é absolutamente importante que as gestantes façam um bom pré-natal no serviço de saúde mais próximo do seu local de trabalho ou moradia - comparecendo fielmente aos atendimentos, realizando os exames solicitados, tomando os remédios receitados e adotando as orientações educativas, garantindo, assim, o efetivo acompanhamento de sua gravidez.
Atenção adequada ao parto
Um dos mais importantes fatores para a redução da mortalidade perinatal, com significativo impacto na mortalidade infantil, é a disponibilidade de assistência ao parto - segura e humanizada, adequada às condições de vida da mulher e ao seu estado e riscos de gravidez. Ressalte-se que a qualidade dessa assistência não é garantida apenas pela existência de equipamentos especializados em determinado hospital ou maternidade, mas sim pelo número de leitos disponíveis e profissionais realmente capacitados. Além disso, a assistência deve ser realizada de acordo com as alternativas e possibilidades regionais e locais (Casas de Parto, parteiras tradicionais, etc.), sempre visando à melhoria da qualidade.
Aleitamento materno exclusivo
A adoção do aleitamento materno contribui para a redução da mortalidade infantil, quer melhorando o estado nutricional, quer impedindo o surgimento de diarréias – além disso, fornece imunidade e propicia uma troca intensiva de amor entre a mãe e a criança.
Identificação do recém-nascido de risco
Logo após o nascimento, é necessário identificar, de acordo com os seguintes critérios de risco, se a criança apresenta maior probabilidade de morrer, para que receba atenção especial dos serviços de saúde:
- Baixo peso ao nascer (menos de 2.500 gramas)
- Crianças com má formação congênita
- Crianças filhas de mães portadoras de HIV
- Crianças resultantes de gravidez indesejada.
- Crianças cuja mãe perdeu um filho com menos de 2 anos de vida
- Mãe sem companheiro, analfabeta e/ou sem condições de manter a família (ela ou o companheiro desempregados, por exemplo).
Conclusão
Significativo número de mortes podem ser controladas mesmo em comunidades que apresentem precárias condições de desenvolvimento socioeconômico; entretanto, tal fato depende, sempre, de decisão política, organização dos serviços de saúde e da área social e adoção de ações educativas permanentes tanto nas escolas como em grupos comunitários.
Numa outra vertente, as causas relacionadas à mortalidade perinatal requerem unidades de saúde em condições de pleno e adequado atendimento às mulheres durante o período de gestação e no momento do parto.
Em toda a trajetória empreendida contra a mortalidade infantil observa-se não existir apenas um caminho, mas diversos, que, se adotados seriamente, conduzem à sua redução. Nesta luta, o papel das comunidades, das famílias, dos profissionais de saúde, educação e sociais - e especialmente das mães - é condição estratégica de apoio e envolvimento, uma vez que as crianças são parte integrante das famílias e comunidades.
Como exemplos de programas sociais implementados no país, a partir da ação governamental, destacam-se os programas dos Agentes Comunitários de Saúde, inserido no Programa de Saúde da Família (PSF), do Ministério da Saúde, e o Comunidade Solidária, coordenado pela Presidência da República. Existem ainda, entre outros, o Programa de Qualidade Integral de Saúde (QUALIS/PSF), do Governo do Estado de São Paulo, e o Saúde da Família, das prefeituras municipais de Niterói (RJ), Sobral (CE) e Chopinzinho (PR).
Esses programas têm contribuído - e muito - não só para diminuir as taxas de mortalidade infantil como para modificar e organizar o perfil das organizações não-governamentais. Ressalte-se, entre as ações diretamente voltadas à diminuição da mortalidade infantil, o excepcional trabalho desenvolvido pela Pastoral da Criança.
ATIVIDADES SUGERIDAS
I - Antes de assistir ao vídeo
Primeira fase:
O coordenador (professor, educador ou agente de saúde) poderá solicitar a cada participante – no caso, crianças ou adolescentes – que pergunte, em casa, como foi seu primeiro ano de vida, desde o nascimento. Para tanto, algumas questões poderão ser propostas :
- Quando nasci, minha mãe fez um parto normal ou uma cesariana?
- Que tipos de doença tive antes de completar um ano?
- Minha mãe teve algum tipo de complicação durante a gravidez?
Caso os participantes sejam adultos, poderão narrar as experiências próprias de ter filhos, ou contar histórias de amigos e familiares que os tenham.
Cada pessoa deverá apresentar, à turma, as informações obtidas em casa, o que possibilitará uma troca de conhecimentos práticos - sempre com a orientação do coordenador -, já que esta conversa propicia às crianças, pais e toda a família dialogar com naturalidade a respeito de questões relacionadas à saúde, sendo também uma forma de relacionar o conteúdo do vídeo com a vida prática de cada um.
Segunda fase:
O coordenador deverá discutir com os participantes os tipos de cuidados que devem ser adotados com relação às crianças menores de um ano:
- O que a mãe deve fazer ao descobrir que está grávida?
- Ela deve consultar o médico, pelo menos, quantas vezes durante a gravidez?
- Vocês conhecem alguma mulher que está grávida?
- Alguém tem um irmãozinho com menos de um ano?
- Que tipo de cuidados seus pais tomam com o bebê?
- Qual o papel do pai durante a gravidez da mulher?
- E os irmãos maiores, como devem tratar a mãe que vai ganhar outro bebê?
- Além do parto normal, existe alguma outra forma de nascimento do bebê? Qual a mais segura?
- A saúde da mãe influi na saúde da criança que está dentro da barriga?
- Como deve ser feita a alimentação da criança nos primeiros seis meses de vida?
- Quais os principais cuidados que os pais devem tomar com a criança durante seu primeiro ano de vida?
A partir de perguntas como estas, o coordenador identificará o grau de conhecimento dos participantes sobre os cuidados que devem ser adotados com as mulheres grávidas e os bebês, e as principais dúvidas a respeito do tema. Assistindo ao vídeo, a turma deverá buscar, com o auxílio do coordenador, respostas às suas perguntas, além de novas informações sobre o assunto.
Terceira fase:
Outra alternativa é convidar os participantes a escreverem, no quadro, os cuidados que os pais devem ter desde a descoberta da gravidez até o primeiro ano de vida da criança. Compartilhando suas experiências pessoais com os colegas, os participantes terão maior interesse em assistir ao vídeo e buscar respostas para suas perguntas. Ao relacionar o vídeo com suas próprias vidas, compreenderão melhor a importância das medidas de prevenção e dos cuidados especiais durante a gravidez e o primeiro ano de vida do bebê.
II – Após assistir ao vídeo
Muitas vezes, doenças como a diarréia e a pneumonia causam a morte de crianças com menos de um ano de idade. Visando trabalhar esta questão, poderão ser formuladas as seguintes questões:
- Como é possível evitar ou tratar a diarréia?
- O que se deve fazer para evitar a desidratação das crianças?
- Como se pode descobrir que uma criança está com pneumonia?
- O que fazer em caso de dúvida a respeito dessas doenças?.
- Que tipos de vacina o bebê deve tomar antes de completar um ano de idade?
- Por que a criança deve tomar essas vacinas?
Conclusão
A partir das discussões anteriores, os participantes deverão pensar sobre como podem contribuir para a diminuição da mortalidade infantil nos níveis pessoal, familiar e comunitário.
Como fator de grande importância, o coordenador deverá lembrar à turma que o leite materno é uma alimentação saudável para o bebê, e também uma forma de aprofundar o elo de carinho entre a mãe e a criança. Adicionalmente, deve falar sobre a relevância do acompanhamento pré-natal, com consultas periódicas ao médico, e da alimentação saudável da mãe durante a gravidez – modos simples de garantir que o bebê nasça com saúde.
A saúde é um direito de todos, mas inicia-se com o dever de cada um de cuidar do corpo e buscar uma vida saudável.
No caso dos pais, o dever de cuidar da saúde do bebê começa quando a mulher descobre estar grávida.
Cidadãos conscientes da importância da saúde ajudarão a diminuir as taxas de mortalidade infantil em nosso país, contribuindo, também, para que as crianças sejam mais fortes, saudáveis e felizes.
Dr. João Batista Magro Filho (UFMG/FHEMIG)
Dra. Maria Aparecida Andrés Ribeiro (UFMG)