Aborto Espontâneo - Perguntas
atualizado em 29/11/2004Perfil psicológico
Drauzio - Dizemque mulheres mais estressadas e com problemas de ansiedade estariam maispropensas a abortamentos espontâneos. O que existe de científico nisso?
Mario Burlacchini - Pacientes abortadoras de repetição ouhabituais têm um perfil de estresse acentuado. Na verdade, trata-se de umcirculo vicioso: a mulher fica ansiosa porque teme não conseguir levar agravidez a termo e isso acarreta dificuldades de manter a gravidez e até mesmode engravidar.
A gente sabe que a mente comanda o corpo dentro de certos limites. Se apaciente começa o pré-natal muito ansiosa, com muito medo e muito negativismo,vai desencadear fenômenos biopsíquicos que podem levá-la a novo abortamento.
Por isso, o atendimento da paciente abortadora habitual precisa sermultidisciplinar. Ginecologista, obstetra, geneticista, assim como olaboratório e os profissionais que nele trabalham são fundamentais noacompanhamento dessas pacientes.
O apoio psicológico também é muito importante e deve incluir o casal e não sóa mulher. É preciso que ela se tranqüilize, tenha confiança no tratamentoproposto e esteja disposta a segui-lo direitinho. Não adianta o médicoprescrever a medicação, se ela não acredita que seguir o tratamento vaiajudá-la.
Drauzio - Falamos do impacto do psiquismo na gravidez.Agora vamos falar do impacto causado pela repetição dos abortos na psicologiada mulher e na vida do casal que quer ter filhos?
Mario Burlacchini - Não existem estatísticas a respeito donúmero de mulheres abortadoras habituais que desistem de engravidar, mas sãomuitas. O abortamento repetido pode levar a problemas familiares e até mesmo àseparação do casal. A impossibilidade de ter filhos leva a uma frustraçãomuito grande, uma vez que está arraigada nas pessoas a tradição de casar, terfilhos, criá-los.
Às vezes, a mulher nos procura sozinha e percebe-se que ela está sofrendopressões por não conseguir engravidar, embora nem sempre seja a causadora doproblema. Nas clínicas de esterilidade, não é raro o homem recusar-se a seravaliado, temendo ser a causa do problema.
Drauzio - O homem sempre acha que a causa está na mulher?
Mario Burlacchini - Na grande maioria das vezes, acha. Asituação ainda é pior para as pacientes que engravidam e não mantêm agravidez, porque fica patente que ele é capaz de engravidá-la e é ela que nãoconsegue manter a gravidez.
Muitos casais chegam ansiosos. Felizmente, no local onde exerço mais oacompanhamento de gestantes com abortamento, temos um serviço de psicologiacompetente, acostumado a lidar com o casal com esse problema ou com qualqueroutro que surja na gravidez.
![]() | Dr. Mario Burlacchini é médico, especialista em Medicina Fetal, e assistente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo. |
